Olhos de mar – o início

Olhos de mar – o início

Antes não havia nada, nem o escuro, sequer uma palavra que nomeasse o que não existe. No princípio Deus criou os céus e a terra, diz o antigo livro. Talvez por esquecimento ou descuido parte da sentença foi apagada. Ela era: No princípio Deus criou os céus e a terra com o piano.

A divindade estralou as mãos, se ajeitou no banquinho sem a cerimônia maiúscula que acompanha seu nome e começou a tocar. A terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito divino pairava sobre as águas. Os dedos pressionam as teclas com a delicadeza de quem sente uma uva gorda antes de levá-la a boca. As cordas levemente tocadas pelos martelos ao sabor dos nuances das mãos imensas. O som se criou, levantou do instrumento e espalhou-se tateando cada ínfima parte, descobrindo-as. Assim fez-se a luz, a divindade viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Foram criados o dia e à noite e se passou o primeiro dia.

Ele tocaria eternamente sem se preocupar com a finitude que acabara de ser criar. Ter iniciado o tempo era apenas uma ideia remota na mente que se concentrava na música. Mas havia um mundo por se fazer, ele sabia disso, você sabe: ele sabe tudo. E ele também tudo pode, mas quem tudo pode nem sempre quer, Deus queria tocar somente. As mãos se levantaram um pouco, o som parou de soar por segundos, só a respiração preenchia a todo lugar. As mãos iniciam uma nova música, cada uma originando uma melodia diferente, as notas se complementando e conflitando como bocas que se mordem enquanto se beijam. Cada qual compunha um espetáculo à parte, e juntas fizeram um firmamento entre as águas, separando umas das outras.

Outra parada, por um longo momento as mãos ficaram inertes a alguns centímetros da fileira de teclas brancas e pretas. Ele se levantou e pôs os grandes olhos sobre a fenda. Com toda a leveza e força a divindade colocou o piano em uma das partes e a outra se solidificou. A divindade chamou o elemento árido de terra e ao ajuntamento das águas de mar. Viu que isso era bom, depois guardou o instrumento nas águas salgadas.

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ÚLTIMAS NOTÍCIAS: A comunidade de pescadores de Tibau do Sul, pequena cidade na costa do Rio Grande do Norte, informou nesta manhã que três pescadores encontraram um objeto inusitado submerso a cerca de duas milhas da costa. Segundo relatos dos próprios pescadores, se trata de um piano coberto por algas que eles não conseguiram retirar do fundo do mar. Não há informações da procedência do instrumento e a Capitania dos Portos do estado ainda não comentou o caso.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Praia de Cotovelo, Parnamirim-RN. Gustavo Chalegre.

Natal e outras crônicas (Livro)

Natal e outras crônicas (Livro)

Uma família que mora na rua e quer mostrar o Papai Noel ao filho, um senhor que sonha com a falecida mãe durante a sesta, um milionário que não sabe mais o que comprar porque toda cidade já é sua. O que eles têm em comum?

Todos fazem parte das minhas primeiras crônicas (quase contos) publicadas em livro. São três textos: “Natal” (que dá nome ao volume de crônicas), “No rio escuro” e “O Fim”

Eles estão no livro “Natal e outras crônicas” da Editora da UFRN que compila os textos selecionados no II Concurso Literário América da Silva Oliveira. Os três volumes do concurso (os outros dois são de contos e poesias) foram lançados em livro digital hoje, com produções excelentes de diversos autores  que foram escolhidas pelas comissões julgadoras do concurso.

Agradeço a todos os amigos que seguem o blog, sem suas leituras, comentários e likes não seria possível continuar escrevendo. Muito obrigado!

PS: um agradecimento especial para meu grande amigo e revisor Arthur Duarte.

LINK PARA O E-BOOK “NATAL E OUTRAS CRÔNICAS” EM PDF

https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/21995

capa-livro

Pássaros

Pássaros

Os veículos passam, fica a fumaça para os pedestres que se aventuram na calçada da avenida. Parte dos caminhantes ingressam no bar, são clientes de sexta-feira que se juntam aos de todos os dias, apenas um homem continua andando. Ele para em frente à banca, os olhos atravessam as notícias e as palavras cruzadas, enxergam algo além.

Eles agora são o revoar dos pássaros na alvorada, mas não possuem asas. Essa é uma lição de sabor amargo que alguns destes meninos que saem correndo da escola após o sinal talvez aprendam um dia a embrulhar em veludo. Só que são coisas para pensar amanhã, hoje eles apenas voam para algum lugar, qualquer lugar fora dos muros brancos da escola. Após a euforia dos primeiros metros, os pássaros desaceleram e vão pousando em lugares diversos: nos carros, no velho cajueiro, na praça, na gangorra e alguns planam para o outro lado da rua. No ponto de ônibus eles se juntam ao velho com o carrinho de picolé. Um deles reconhece sua condução chegando, tem de agir rápido. Pede um picolé de morango e entrega o bilhete da passagem estudantil. Com o picolé na boca, as duas mãos se apoiam na catraca para um escorregar por debaixo dela como um gato. Não pode bater a cabeça nem tocar a farda no chão, não há como trocar nenhuma das duas.

– Pois não? A mão aponta para a parede dos fundos da banca onde mil coisas disputam centímetros de atenção. O indicador baila entre revistas, propagandas, cigarros, jornais velhos e imãs de geladeira procurando alguma coisa. Está ali, é o que o dedo apontado para o freezer quer dizer. – Um picolé, a boca complementa. O ar gelado sobe quando o vendedor abre a tampa do aparelho e no segundo em que o vendedor se prepara para listar as opções o homem já escolhe: – De morango. Ele se vai provando o picolé aguado e artificial, o único onde ele sentirá o gosto das corridas para pegar o ônibus para casa, o sabor da liberdade dos pássaros

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Praça André de Albuquerque Maranhão, Natal-RN. João Gilberto Saraiva.

Praça XV

Praça XV

O mundo dorme seu doutor, o dinheiro não. É o que me diz de vez em quando seu Sebastião e suas olheiras vincadas em décadas vigiando a Bolsa de Valores em frente à Praça XV. Durante o dia, tantas e tantas gravatas e ternos pelos seus andares, mas a noite dois solitários. No térreo, o senhor de olhos enevoados que conheço, o seu jornal e as antigas canções românticas que povoam a madrugada. No último andar, o novo analista de mercados, a garrafa de café e a respiração inaudível do computador. O que diz o porteiro é quase verdade: enquanto a maior parte do Rio de Janeiro dorme, os mercados da Ásia e Oceania estão bem acordados. É por isso que a luz da portaria e de uma sala no último andar ficam acesas todas as noites, para que o analista acompanhe a taquigrafia das bolsas de valores. Tóquio, Seul, Xangai, Sidney, Mumbai, cada uma delas acordando e acrescentando uma linha no monitor. Geralmente formam uma maré de altas e baixas uniformes, mas há noites de ressaca e calmaria prolongada. Este é o serviço meteorológico de investidores que a essa hora devem estar dormindo, mas o que diz o vigilante é apenas quase verdade, especialmente às sextas.

Ainda antes dos dois chegarem ao trabalho, já começava uma festa na Praça XV. A algazarra crescente de pessoas dançando, bebendo e conversando, entrando e saindo da praça em frente às janelas blindadas da Bolsa de Valores. Nesses dias, é impossível escutar o rádio ou ler as notícias, como também prestar atenção apenas nos mercados. Algum clássico dos anos setenta animava as pessoas. Ben? Simonal? E os solitários, cada um no seu andar, apenas observavam a festa. Talvez atentassem ao cansaço do vendedor apoiado no isopor gigante, ou no grupinho de jovens que conversava ao seu lado. Até que a música parou e os três jovens olharam para o Arco do Teles como quem pede explicações. Elas vieram em forma de batidas rápidas e sincrônicas, o funk balançando o mundo. O grupo de jovens agora dançava, e se destacava uma que se movia com tamanha graça que parecia levitar. Era o que deviam pensar o porteiro e o analista, e ignorando as leis da física e os prognósticos de queda das bolsas, ela fez da suspeita realidade. A moça ascendeu dançando, os passos acompanhando o som com perfeição, e logo ultrapassou a grande estátua de Dom Pedro à cavalo no centro da praça. Continuou subindo, os olhos fechados e o corpo embalado. Por fim, ela chegou na altura do prédio da Bolsa, dançou em frente as janelas do último andar e começou a descer. Quando seus pés tocaram o chão com leveza a música terminou. Tão estranho quanto seu voo é que ninguém na praça pareceu se dar conta dele, nem seus amigos próximos. Quem com certeza notou foi o novo analista, que saiu branco do elevador e perguntou se o porteiro havia visto aquilo. Seu Sebastião diz que respondeu: o dinheiro voa seu doutor, as pessoas não?

Há quem acredite no seu Sebastião e nas suas quase verdades. Sei que eu mesmo consultei os jornais nos dias seguintes. Não havia nenhuma nota, nada sobre uma jovem que tenha levitado na Praça XV, só a repercussão da queda nos mercados asiáticos. Dois dias depois apareceu uma vaga de emprego na Bolsa de Valores exigindo formação em economia e disponibilidade para trabalhar a noite. Ela ainda está aberta, se você conhecer alguém que atenda esse perfil avise. Em tempos de crise, é sempre bom compartilhar oportunidades de empregos.

Revisão: Arthur Duarte

Fotografia: Plutus (Flicker)

Livraria

Livraria

A pequena placa na fachada indica o nome e o endereço, mas ele nem precisa olhar, sabe de cor. Livraria de B. L. Garnier. Rua do Ouvidor, 71. Grande sortimento de Livros classicos, Medicina, Sciencias… O que lhe chama atenção agora é ver mais uma vez seu próprio nome do outro lado da vidraça, em destaque na casa que abriga pessoas que tanto admirou ao longo da vida, Victor Hugo, Pascal, Montaige, Shakespeare. Ele sabe que o fio da sua já vai gasto, e que não haveria tinta para sua caneta-tinteiro escrever mais um livro. É o som de passos na calçada que lhe retira do estado absorto. Um senhor e um rapazote bem arrumados, os ternos já estão em moda, mas vão à antiga: fraque, cartola, bengala e sapatos. Cumprimentam e passam, o bom perfume se demora um pouco mais, o quase septuagenário atenta para o rapaz alvo e garboso.

As cartas pousadas sobre a mesa não chegam a uma dúzia, mas não é de se admirar porque este é um pequeno jornal que mal se mantêm. O jovem veio bem cedo para diminuir um pouco mais esse número, agradeceu ao porteiro e pôs no bolso uma carta endereçada Ao autor do soneto. O caminho até a Praça da Constituição não é longo, mas ele teve que segurar a ansiedade para ler apenas quando chegasse à tipografia. Já lá, numa mesinha ao lado dos tipos metálicos da prensa, enfim matou sua curiosidade. Eram elogios comedidos ao poema, especialmente aos versos. O genio que vos faz ennobrecer. Virtude e graça de que sois c’roada. O remetente anônimo comentou que pelo estilo e iniciais da assinatura sabia que o autor era um estudante do nobre Colégio Pedro II. Ele esqueceu o papel em suas mãos e se transportou para lá, se viu a dominar o latim e o francês com a facilidade do incrível cigano domador de leões que havia visto escondido na semana passada. Mas de repente, do riso fez-se o pranto. Ele mesmo se trouxe de volta à realidade. Sabia que naquele colégio havia lugar para filhos de barões, não para um aprendiz de tipógrafo pobre, ainda mais preto. E antes que uma lágrima fugidia pudesse surgir, ele rasgou a carta em pedacinhos e tomou sua decisão. Não, não seria um domador de palavras, não precisaria de chicote e banquinho. Seria um encantador como o árabe da flauta que fazia as cobras dançarem. Faria as palavras subirem do chão, bailar e cobrir cada coisa e pessoa com astúcia e beleza. Resolução tomada, era hora de voltar ao tipógrafo, posicionar letra a letra com cuidado para que nenhuma saísse invertida ou fora do lugar no folhetim de amanhã.

Quando o rapaz e o senhor bem vestidos dobram a esquina ele se volta para a vitrine da livraria. Seu coração não está habitado por qualquer mágoa ou rancor, só a satisfação reacendida. Mão na maçaneta da porta pesada que o separa dos velhos amigos. Antes de abrir mais um relance no que está escrito na vitrine. Machado de Assis. Memorial de Aires.

Machado de Assis lançou seu primeiro poema no Periódico dos Pobres no mesmo ano em que começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo, 1854.

Lançou seu último romance, Memorial de Aires, e faleceu no Rio de Janeiro em 1908.

Revisão: Arthur Duarte

Fotografia: Acervo Biblioteca Nacional

 

Os velhos

Os velhos

O par de cadeiras giratórias, logo na entrada, com seus estofados desgastados e detalhes em madeira, poderiam estar em um antiquário. Junto da figura do sexagenário de bata, elas contribuem para a impressão de que o tempo parou no batente que separa a barbearia do seu Amorim da calçada. Essa sensação é quase dissipada pelo relógio ao lado do crucifixo – afinado com nos ponteiros gigantes da Central do Brasil que marcam o tempo do mundo perto dali – e pelas propagandas do rádio de pilha escondido entre frascos e bisnagas no balcão. Seu Amorim e o cliente, um senhor negro aparentemente mais novo que o barbeiro, me recepcionam bom dias que correspondo cordialmente. O dono do estabelecimento já conhece meu sotaque, o outro me destina um relance de curiosidade pelo espelho. Afasto alguns jornais e me sento em um banco de estofado antigo enquanto espero minha vez. O nosso silêncio é preenchido pela repetição dos sons secos da tesoura junto dos anúncios de frutas e verduras, planos de saúde e lâmpadas. Se alguém um dia me perguntasse por que ia cortar o cabelo ali, eu usaria a resposta com a qual tento convencer a mim mesmo: porque é mais barato e é perto de casa. Mas sei que na verdade gosto desse lugar em que o passado se segura para não partir, das suas coisas antigas e dos velhos.

E enquanto eu pensava por que ia ali, eles começaram a a comentar sobre o que o rádio estava tratando: os resultados da última rodada do futebol. Entre gols e contusões dos times do Rio de Janeiro, o cliente puxa um fio do passado: “Bom era aquele Flamengo de Zico e o Vasco de Dinamite”. O outro confirma e emenda: “Mas eu gostava mesmo era do nosso timinho ali no campinho de terra”. “É mesmo”. O senhor se anima na cadeira, o olhar se torna vivo. “Timão, eu, você, Zeca…” Eles escalavam e comentavam sobre como estavam cada um dos jogadores do time hoje. Pelo espelho o barbeiro percebeu que eu acompanhava a conversa. “Você é muito novo e do Norte”, o que para eles significava qualquer lugar acima de Minas Gerais. “Não sabe, mas esse aí era craque, fazia gol de tudo que é de jeito. Lembro como se fosse hoje, ele levando a pelota feito maestro e fazendo gol, chamavam de Umbabarauma lá em Bangu”. Enquanto eles revisavam gols e títulos eu imaginava o senhor décadas mais novo. No lugar do campo de terra batida na Zona Oeste, a grama de um Maracanã lotado, ele driblando dois na meia-lua e mandando um canhão da boca da área. Quando meus pensamentos pousaram novamente no centro do Rio, o homem de bata estava com um espelho pequeno na mão mostrando os detalhes do pé e nuca do cliente e dizendo: “Você ia dar para profissional”. O outro balançou a cabeça em sinal de positivo, não sei se aprovava o corte ou o que dizia o barbeiro. Olhando para mim pelo espelho maior ele levantou um pouco a calça da sua perna esquerda e deu um peteleco onde devia estar sua panturrilha, o estalo tinha um som de plástico. Disse “Mas ai aconteceu isso né…”. “Coisas da vida” comentou o barbeiro como quem ameniza os desgastes do tempo. “Coisas da vida” repetiu sem qualquer remorso o homem que se levantava da cadeira. “Deixa que eu pego” disse o barbeiro e deu uns passos em direção ao fundo do estabelecimento.

O homem esperava no batente, pelos passos que vi dar não suspeitaria que ele não tinha uma perna. Dos fundos veio seu Amorim com uma placa amarela, o homem agradeceu e a vestiu. Em letras garrafais estava escrito: COMPRO OURO. Alianças, Joias, Etc. Abaixo um telefone e um endereço ali do centro. O senhor negro deu uma tapinha no ombro do seu Amorim. “Obrigado meu amigo, bom trabalho”. “Vai com Deus, Valdisnei”. Ele respondeu ao barbeiro com um aceno breve e se foi. Passando o limite entre a barbearia e a Rua dos Inválidos ele deixou nas nuvens da memória Umbabarauma, o ponta de lança africano de Bangu, e voltou a ser Valdisnei, mais uma homem placa no coração do Rio de Janeiro. Me lembrou que é mesmo engano pensar que o tempo para em algum momento. Seu Amorim já esperava em pé eu assumir meu posto na velha cadeira de barbeiro.

Revisão: Arthur Duarte

Fotografia: Maracanã entre as décadas de 1960 e 1970.

O irmão

O irmão

Os passos são curtos e rápidos, a pequena caixa de papelão dentro de um saco plástico está presa entre o braço e o tórax como um juiz que leva a bola ao centro do campo para o apito inicial. Mas a jornada de trabalho desse que se aproxima da esquina não vai começar, ela já está perto do fim. É a última entrega do dia, as centenas de ponteiros sobre o engradado de madeira do vendedor de relógios made in China apontam seis horas e alguns minutos. Ele segura a entrega com força porque sabe que precisa dobrar a rua e entrar na avenida Amaral Peixoto no horário de pico. Ele respira, o Senhor Deus há de ajudar, e entra. Aperto, ele rema sôfrego contra a maré, todos estão indo para a barca, na direção contrária ao endereço de sua entrega. São peixes de gravata, camisa de botão, farda, vestido, roupa de ginástica nadando na luz do poente para atravessar a Baía de Guanabara o mais rápido possível e chegar no centro do Rio e de lá continuar a viagem para casa. Os olhos se ocupam ao mesmo tempo de não esbarrar em ninguém nessa piracema e procurar o endereço. Duzentos e três, duzentos e cinco, um encontrão com uma idosa, sacola de supermercado nas mãos. Duzentos e sete, namorados de mãos dadas que não permitem sua passagem. As pernas estão cansadas, Dá força Pai a este teu servo, duzentos e onze. Numa banca de jornal um homem de terno compra um isqueiro, duzentos e treze, tá perto, duzentos e, alguém trava seu caminho. Uma moça sorridente, prancheta nas mãos e camisa verde com um planeta tão sorridente quanto ela, O senhor tem um minuto para o meio-ambiente? Eu não tenho um minuto nem para ver meu filho, desvia. Duzentos e quinze, Obrigado Senhor, cheguei. Dedo no interfone, Pois não? Boa noite, entrega para o senhor Jorge Machado Pereira no 401. Um momento. Os pensamentos vagueiam na espera. Por que falou do filho há pouco? O menino de olhos curiosos nos braços da mãe no culto do domingo retrasado é o plano de fundo do seu celular. Talvez porque o nome da entrega seja o mesmo que o seu, Jorge, e isto faça-o lembrar do filho, o pequeno Mateus. Desde que aceitou Cristo Jesus nunca mais ele quis ser chamado pelo seu nome, Jorge. De lá pra cá – cinco anos – todos o conhecem por irmão Silva. Ele acha que fez melhor que seu pai porque escolheu para o filho um nome bíblico. Não quero filho com nome tipo o meu, que tem pé em coisa de terreiro, disse uma vez. Quando Mateus ainda era sonho e pedido de oração fervorosa feita de joelhos no azulejo branco da pequena igreja, ele já tinha escolhido como se chamaria. Por que esse nome? Por causa do versículo da pregação na noite em que renasceu. Vinha cabisbaixo, desempregado, contas do velório do pai nas mãos, sem saber o que fazer. Fazia questão de dizer a todos que Jesus tinha posto aquele versículo na boca do pregador naquele dia especialmente para ele. “Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis”. Recitava mentalmente quando o barulho do portão abrindo o trouxe de volta a avenida Amaral Peixoto. O porteiro recebeu o pacote, cada um fez um rabisco no caderninho de protocolos do outro. Valeu. Valeu. Era hora de ir a favor da maré. Barca, ônibus, chacoalhar nos trens da Central rumo a Japeri, longe do mar e perto da cruz. Moído, os olhos pescam enquanto se segura em pé no vagão, lembra que ainda faltam dois dias para sábado, que é quando poderá ter um tempo com o menino maior do que apenas um relance no seu sono angelical. Pensando em Mateus, lembra também de perguntar a mulher se ela já entregou o dinheiro do dízimo.

Revisão: Arthur Duarte

Fotografia: Acervo Extra