Cinquenta e quatro dezesseis

Cinquenta e quatro dezesseis

O telefone tocou novamente, encobrindo o murmúrio da televisão. Me tirou de um livro e trouxe minha atenção para a sala de estar. Quantas vezes isso já se repetiu na minha casa? Não tenho ideia, certo é que isso acontece há, pelo menos, vinte e cinco anos. Conta minha mãe que pelo final dos anos oitenta, meu pai madrugou na grande fila para obter uma linha com o dinheiro que haviam juntado. Ficaram muito felizes quando depois de anos de espera enfim instalaram o nosso 5416. Lembro do seu auscultador negro, grande demais para minha cabeça de criança, que ficava preso em um fio enrolado e do som do discador circular que você girava cada vez que acionava um número. Do seu lado um caderninho, pedaço de papel ou qualquer coisa que servisse para anotar recados. E se a notícia boa ou ruim era urgente, já alguém me mandava pôr as pernas no mundo, o telefone pertencia a casa da esquina, mas atendia a toda a metade de baixo da rua. E eu não sei se eu então gostava ou não do telefone, só lembro que galopava muito veloz minha corrida manca. Um pouco mais crescido eu tinha raiva dele porque atrapalhava ver o desenho na tevê, eu tinha que anotar serviços para meu tio que conserta máquinas de lavar no único número da família. Nessa época eu não corria mais para dar recados, eu registrava no papel, talvez porque já tivesse vergonha de ser manco. Mas isso, é claro, foi antes de eu conhecer um tal de Drummond que me disse, com razão, que ser canhoto e manco é um ponto de vista muito bom para ler esse mundo desajeitado que manqueja das duas pernas.

Quando não era alguém chamado na linha 5416, ela podia estar ocupada por mim ou minha irmã ansiosos pelos jogos ou chats na internet discada, em nossa disputa com minha mãe, sempre querendo falar com nossas avós, tias, primas em Pernambuco, Bahia, São Paulo ou Sergipe. E encarrilhado nas memórias é justo afirmar que, ao contrário do que dizem por ai, os telefonemas carregam cheiros. Digo isto porque a sala da minha casa era invadida pela brisa marinha e o calor do sol quando o engenhoso Gilberto, meu pai, ligava para saber a tábua de marés e calcular a melhor praia e horário para irmos. Ou então subia o aroma da manteiga que derrete na tapioca quente, ou do xerém, quem sabe do bode ou porco no forno se minha mãe avisasse que nossa avó fosse cruzar a ponte metálica sobre o São Francisco. E se o combinado fosse o contrário, irmos nós a Bahia, talvez o cheiro que viesse do auscultador fosse o das águas do Velho Chico esperando paciente pelos nossos pulos e nados. Estas são algumas coisas que resistem ao tempo, outras que já não se repetem mais. O próprio 5416 também mudou um bocado ao longo de anos, do negro aparelho de discador redondo para o quadrado e branco com botões. Depois a engenhoca sem fio, elo perdido entre o aparelho domiciliar e o celular, que se mudou conosco da casa antiga para o apartamento.

A verdade é que no novo lar ninguém queria mais dar a atenção que o telefone tinha antes. Ele até que muito tocava atrapalhando o trabalho de um, a leitura de outro ou alguém vendo o noticiário na televisão, mas ninguém se interessava em atendê-lo. Isso porque cada um tem o seu próprio telefone no bolso, mas também porque não dava mais para atender a chamada no fixo sem antes olhar a bina. A maioria das ligações era de um banco oferecendo empréstimo, ou descontos imperdíveis, ou a cobrança de uma dívida que ninguém sabe se foi realmente feita. Ai ninguém se prestava mais a atender e deixava ele chamar silenciado até que desistissem. Uma ou outra vez é que alguém atravessou o portal do tempo e ligou perguntando sobre o técnico de máquina de lavar ou alguma antiga vizinha, mas até esses desconhecidos já sabem que o telefone não é mais aquele, querem saber os novos números das pessoas.

Por essas e outras que a família depois de muito protelar se reuniu na mesa da cozinha. Com café, memórias e cartas postas na mesa, tomou sua decisão. Trim-trim! O telefone tocou novamente, fui atender e não era nada demais, só a operadora dizendo atrasada que o 9542 está funcionando perfeitamente. Eu já sei disso, faz uns dias que ele está por aqui, mas ninguém lhe dá muita bola. Ele é portátil, funcional e moderno, como nos disse a vendedora na loja do shopping, só que não carrega a importância e as lembranças que o velho 5416 tinha em nossas vidas.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Rio São Francisco, Paulo Afonso-BA, 2009. Gustavo Chalegre.

Anúncios

Carta aos namorados

Carta aos namorados

Todo doze de junho traz no alforje perguntas dessas que só as crianças, os filósofos e os poetas levam a sério: o que é um namoro? Afinal, o que é o amor? As crianças respondem com um riso, os pensadores com um silêncio grave. Não sou nenhuma das duas opções – até queria experimentar novamente brincar um dia todo sem cansar ou pensar que obrigações rima com faturas de cartões, mas não há como –  cavo o mundo em busca de respostas. Estudos indicam que existem cerca de 7,347 bilhões de opiniões vivas e muito diversas sobre a face da terra para estas perguntas. Isso sem contar as mais conhecidas do passado, do bíblico sentimento que dá sentido a tudo à infinita duração finita de Vinícius de Moraes, passando pelo camoniano fogo que arde sem se ver. Algumas respostas são muito belas, muitas outras encharcadas em sentimentos diversos, como a dor e a gratidão, todas muito válidas, mas nenhuma minha.

Encontrar uma resposta própria sobre o que é o amor é ir puxando um fio sem a certeza se saíra desse labirinto ainda em vida, mas de todo modo eu vou puxando. Há cenas que tenho certeza que vou encontrar: minha mãe sentada na mesa da cozinha lendo para mim uma lição de matemática, Fá – que ajudou a me criar – me trazendo um prato de feijão, arroz e peito de frango empanado, meu pai encantado com uma nova invenção sua, minha irmã me procurando pela escola. Mas há também as inesperadas, como eu e meus amigos de infância numa corrida de tampinhas, uma reunião com amigos de trabalho contando suas histórias de vida e outras. Esse texto só tem sentido porque parte dessas outras envolvem uma moça magra e espevitada, uns anos a mais de idade do que realmente aparenta e o fôlego para bater com o mundo de frente, mas também para pedir dengo e chorar baixinho no canto diante das injustiças da vida.

Ela é o tipo de pessoa que parece que vai ajudar a responder nossa pergunta, mas na verdade deixa o labirinto mais complicado. É amor onde? Nas palavras ditas ao pé do ouvido ou nas que trafegam entre celulares pelos satélites e cabos? Nos compromissos firmados em alto e bom som ou no silêncio que dispensa palavras? É amor quando? Nos olhos que um dia se cruzaram, ou na atenção redobrada antes de atravessar o cruzamento? É amor como? No que lava os pratos e cozinha junto ou no que convida a dividir a varanda para abrir cerveja e escutar estrelas? Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso. Eu vos direi, no entanto. É mesmo, já juntei passado, presente e cinquenta centavos de futuro. Tenho muitas respostas, todas certas, nenhuma definitiva. Sigo fazendo segredo de liquidificador com Belchior e Bíblia: Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Vista da varanda, Parnamirim-RN, 2016. João Gilberto Saraiva.

Cinelândia

Cinelândia

Os mil passos simultâneos que entram e saem quando a porta abre é o movimento cotidiano da estação no centro do Rio de Janeiro, só que hoje ela é habitada pela calma dominical. Apenas eu e um casal de turistas estrangeiros — americanos, alemães? —  desembarcamos do vagão gelado no piso gasto, uma senhora com olhos cansados não adentrou no metrô, segue esperando alguém. Depois de passar a roleta da saída, vou vencendo o longo lance de escada para chegar efetivamente à Cinelândia. Passo por uma jovem negra compenetrada, suas tranças claras, por algum motivo penso numa rainha egípcia. Lá em cima a paisagem que já vi tantas vezes, de um lado o belo Theatro Municipal, do outro os pombos sobre o monumento a Floriano Peixoto, ao fundo a Câmara e o histórico bar Amarelinho, nos bancos alguns mendigos acordando. Da rua entre o teatro e a câmara de vereadores vem caminhando um homem vestido a caráter para o sol das nove da manhã, sandália, bermuda e uma camisa branca cruzada por uma faixa diagonal preta, como se um motorista tivesse esquecido de tirar o cinto de segurança ao sair do carro. Esse uniforme sempre me remeteu a meu pai, e especialmente a meu avô — que foi enterrado com a bandeira do seu time de devoção —, mas hoje me levou além.

Ontem conversei com alguém com a saudade inscrita no peito sobre seu pai, hoje me dei conta que eu, meu pai e avô somos três gerações de sotaque potiguar que nos aventuramos pelo Rio de Janeiro. E se hoje do agitado polo de cinemas, bares e restaurantes do início do século XX só resta o Odeon e algumas outras casas, o filme do nosso encontro só pode ser rodado na metragem da imaginação. Da esquina do velho Amarelinho dobra um rapaz garboso com o seu paletó dominó, terno e calça brancos, botões e sapatos negros. O andar é ereto, mesmo sendo pouco depois do grave acidente com o caminhão. Seus sonhos o trazem de volta a guerra, mas ele nem pensa nisso agora. Segura os vinténs no bolso e cuida para não sujar a sua roupa de domingo enquanto acelera um pouco o passo para não perder o próximo bonde. Da mesma rua do torcedor vem outro homem, os últimos botões da camisa verde clara estão abertos, a cabeleira e calça de brim cor bege balançam a cada passo das sandálias franciscanas. Ele olha por cima dos transeuntes, para o grande prédio da Biblioteca Nacional. Alguém lhe entrega um panfleto pedindo eleições, ele agradece, mas nem lê, coloca no bolso e segue em direção à avenida Rio Branco.

E ali no coração da Cinelândia nos encontramos. Ali não está o velho Odilon que conheci consertando um rádio ao mesmo tempo em que escutava o jogo em outro. Nem meu pai, Gilberto, que leva a vida desde que me entendo por gente com seus cabelos grisalhos, suas invenções e brincadeiras. Lá são dois jovens que sequer tem ideia de que daqui uns anos serão pai e décadas depois o seu filho — e no caso do meu avô, também o neto — passará pela mesma praça tão longe de casa. Minha vontade é enchê-los de perguntas. Quero saber se do alto do Mosteiro São Bento dá para ver que as embarcações estacionadas na noite são uma constelação flutuante sobre a baía de Guanabara ou se isso já foi escondido por prédios altos. Me interessa o que acharam do Rio de Janeiro, e ali do centro.  Perguntar se também lembraram da Ribeira e das embarcações que atravessavam o Rio Potengi ao ver as marcas d’água no cais esverdeado das barcas que vão para Niterói. Descobrir se meu avô começou mesmo a ser cruz-maltino da maca do hospital militar no qual ficou internado por tanto tempo.

Mas é claro que eles não me respondem, somos uns para os outros fantasmas sob sol que se vão no mesmo vento em que chegaram. Devo ter ficado uns trinta segundos parado olhando fixamente para o nada, porque enquanto guardo para mim as perguntas, percebo que o homem de bermuda e camisa de futebol já está bem próximo. Sem ter saído completamente do encontro com Gilberto e Odilon decido cumprimentá-lo. — Vascão! Ele responde o mesmo, um pouco assustado com meu contato repentino, e começa a descer as escadas da estação. Li uma vez um sábio italiano que dizia cada cidade não é uma, mas sim muitas habitadas não apenas por pessoas, mas também memórias, sentimentos, ideias. Quanto mais levo meu passo manco pelo mundo, mas sou levado a crer que ele está certo.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Praça da Cinelândia, Câmara Municipal e Amarelinho ao fundo, 2017. João Gilberto Saraiva.

São Paulo

São Paulo

A brisa fria da manhã é logo sentida pelo homem que de costas fecha a porta pelo lado de fora. Como girassóis no jardim, as antenas de TV olham na mesma direção e veem o começo do salto diário do Sol sobre nossas cabeças. Pelos furos das nuvens ele pintará partes da cidade cinza com tons de amarelo. Sentado na pequena varanda está o senhor de camisa azul, as mãos enrugadas e a calça gasta. O prédio é mediano e sem luxo, como um bolo de ovos, comum e sem cobertura. Assim como as antenas, o homem acompanha  quase todos os dias a cidade nascer.

Escurecido pela sombra de um prédio em frente, um motociclista segue pela avenida. Para onde vai a essa hora? O relógio dá as horas e não tem tempo para um descanso, imagine os homens que nem as horas têm. Aquele só tem uma caixa na garupa que leva um produto para algum lugar, não há quem pergunte. Na mais rica metrópole, suas várias contradições, já disse um poeta racional. O velho sentado espera desaparecer o rastro sonoro. Já se fora também grande parte das rosas ressequidas com os lucros e perdas da noite, só algumas retardatárias ainda esperam o ônibus do outro lado da rua. As figuras se movem porque já vem o coletivo que as levará. Quando ele chega, desce um homem que se prepara para atravessar a avenida em direção ao prédio. Não é o vigia, está muito magro. É o padeiro, o velho agora vê perfeitamente seu companheiro de copo nos dias de folga. De canto de olho ele observa algumas das desgastadas rosas ainda na fila para subir no transporte, depois cruza a pista.

O veículo se vai e o sol já está de pé. É hora de o velho descer e das pessoas do prédio se levantarem. As mulheres primeiro; manda o ditado que é mais fardo que privilégio. Depois de suas obrigações elas sairão à rua junto dos homens para fazer o mundo. Não se sabe se alguma vez pensem no velho que passa o dia na varanda e mal fala. O certo é que ele pensa todo dia nessas pessoas e em tudo quanto fazem. Fazem, sonham, querem, vão, perdem. Talvez esqueçam que um dia ficarão como ele: sentados, acompanhado o correr do Sol para um novo dia.

A estrela marca o início  para quem comerá os pães que o homem deixou nas formas em cima da grande mesa. Mas para ele o dia não é demarcado pelo Sol, o padeiro acordou à uma da madrugada e quando as pessoas levantarem ele já estará a caminho de casa. Só que ainda é noite e os olhos acostumados percorrem os instrumentos e a paisagem que já conhece intimamente: forno, mesa, farinha, cigarreira da esquina, primeiro andar em frente. O homem de branco e toca sentado no canto da sala de azulejos aparenta ter trinta e cinco anos, mas ainda não chegou aos trinta. Pensativo espera a hora de se arrumar sem prestar atenção no rádio, não faz mal perder a propaganda. Os músicos pesam que o mundo é música, os escritores livros, os publicitários uma propaganda, mas este homem é padeiro e sabe que o mundo não é um pão. Tempos atrás, numa das folgas semanais que passou bebendo com o velho, ele lhe apresentou uma música antiga do Cartola. Com sua voz mansa ele cantava: preste atenção, o mundo é moinho. E o padeiro sabe que ele tem razão: o mundo todo dia nos mói e tritura, para depois – sem ver nisso contradição – dar-nos o pão nosso de cada manhã. O despertador leva consigo os seus pensamentos, lá vem o Sol para desfazer a noite, já está perto da hora de pegar o ônibus.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Vista do nono andar. Rua da Consolação, São Paulo, 2017. João Gilberto Saraiva.

Olhos de mar – o início

Olhos de mar – o início

Antes não havia nada, nem o escuro, sequer uma palavra que nomeasse o que não existe. No princípio Deus criou os céus e a terra, diz o antigo livro. Talvez por esquecimento ou descuido parte da sentença foi apagada. Ela era: No princípio Deus criou os céus e a terra com o piano.

A divindade estralou as mãos, se ajeitou no banquinho sem a cerimônia maiúscula que acompanha seu nome e começou a tocar. A terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito divino pairava sobre as águas. Os dedos pressionam as teclas com a delicadeza de quem sente uma uva gorda antes de levá-la a boca. As cordas levemente tocadas pelos martelos ao sabor dos nuances das mãos imensas. O som se criou, levantou do instrumento e espalhou-se tateando cada ínfima parte, descobrindo-as. Assim fez-se a luz, a divindade viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Foram criados o dia e à noite e se passou o primeiro dia.

Ele tocaria eternamente sem se preocupar com a finitude que acabara de ser criar. Ter iniciado o tempo era apenas uma ideia remota na mente que se concentrava na música. Mas havia um mundo por se fazer, ele sabia disso, você sabe: ele sabe tudo. E ele também tudo pode, mas quem tudo pode nem sempre quer, Deus queria tocar somente. As mãos se levantaram um pouco, o som parou de soar por segundos, só a respiração preenchia a todo lugar. As mãos iniciam uma nova música, cada uma originando uma melodia diferente, as notas se complementando e conflitando como bocas que se mordem enquanto se beijam. Cada qual compunha um espetáculo à parte, e juntas fizeram um firmamento entre as águas, separando umas das outras.

Outra parada, por um longo momento as mãos ficaram inertes a alguns centímetros da fileira de teclas brancas e pretas. Ele se levantou e pôs os grandes olhos sobre a fenda. Com toda a leveza e força a divindade colocou o piano em uma das partes e a outra se solidificou. A divindade chamou o elemento árido de terra e ao ajuntamento das águas de mar. Viu que isso era bom, depois guardou o instrumento nas águas salgadas.

xxx

ÚLTIMAS NOTÍCIAS: A comunidade de pescadores de Tibau do Sul, pequena cidade na costa do Rio Grande do Norte, informou nesta manhã que três pescadores encontraram um objeto inusitado submerso a cerca de duas milhas da costa. Segundo relatos dos próprios pescadores, se trata de um piano coberto por algas que eles não conseguiram retirar do fundo do mar. Não há informações da procedência do instrumento e a Capitania dos Portos do estado ainda não comentou o caso.

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Praia de Cotovelo, Parnamirim-RN. Gustavo Chalegre.

Natal e outras crônicas (Livro)

Natal e outras crônicas (Livro)

Uma família que mora na rua e quer mostrar o Papai Noel ao filho, um senhor que sonha com a falecida mãe durante a sesta, um milionário que não sabe mais o que comprar porque toda cidade já é sua. O que eles têm em comum?

Todos fazem parte das minhas primeiras crônicas (quase contos) publicadas em livro. São três textos: “Natal” (que dá nome ao volume de crônicas), “No rio escuro” e “O Fim”

Eles estão no livro “Natal e outras crônicas” da Editora da UFRN que compila os textos selecionados no II Concurso Literário América da Silva Oliveira. Os três volumes do concurso (os outros dois são de contos e poesias) foram lançados em livro digital hoje, com produções excelentes de diversos autores  que foram escolhidas pelas comissões julgadoras do concurso.

Agradeço a todos os amigos que seguem o blog, sem suas leituras, comentários e likes não seria possível continuar escrevendo. Muito obrigado!

PS: um agradecimento especial para meu grande amigo e revisor Arthur Duarte.

LINK PARA O E-BOOK “NATAL E OUTRAS CRÔNICAS” EM PDF

https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/21995

capa-livro

Pássaros

Pássaros

Os veículos passam, fica a fumaça para os pedestres que se aventuram na calçada da avenida. Parte dos caminhantes ingressam no bar, são clientes de sexta-feira que se juntam aos de todos os dias, apenas um homem continua andando. Ele para em frente à banca, os olhos atravessam as notícias e as palavras cruzadas, enxergam algo além.

Eles agora são o revoar dos pássaros na alvorada, mas não possuem asas. Essa é uma lição de sabor amargo que alguns destes meninos que saem correndo da escola após o sinal talvez aprendam um dia a embrulhar em veludo. Só que são coisas para pensar amanhã, hoje eles apenas voam para algum lugar, qualquer lugar fora dos muros brancos da escola. Após a euforia dos primeiros metros, os pássaros desaceleram e vão pousando em lugares diversos: nos carros, no velho cajueiro, na praça, na gangorra e alguns planam para o outro lado da rua. No ponto de ônibus eles se juntam ao velho com o carrinho de picolé. Um deles reconhece sua condução chegando, tem de agir rápido. Pede um picolé de morango e entrega o bilhete da passagem estudantil. Com o picolé na boca, as duas mãos se apoiam na catraca para um escorregar por debaixo dela como um gato. Não pode bater a cabeça nem tocar a farda no chão, não há como trocar nenhuma das duas.

– Pois não? A mão aponta para a parede dos fundos da banca onde mil coisas disputam centímetros de atenção. O indicador baila entre revistas, propagandas, cigarros, jornais velhos e imãs de geladeira procurando alguma coisa. Está ali, é o que o dedo apontado para o freezer quer dizer. – Um picolé, a boca complementa. O ar gelado sobe quando o vendedor abre a tampa do aparelho e no segundo em que o vendedor se prepara para listar as opções o homem já escolhe: – De morango. Ele se vai provando o picolé aguado e artificial, o único onde ele sentirá o gosto das corridas para pegar o ônibus para casa, o sabor da liberdade dos pássaros

Revisão: Arthur Duarte.
Fotografia: Praça André de Albuquerque Maranhão, Natal-RN. João Gilberto Saraiva.